(extraído da edição de julho/2003 de Melhores e Maiores de Exame)

Tecnologia e Computação a melhor: Cobra Computadores

PELE RENOVADA

Antes atolada no vermelho, a Cobra bate recorde de lucratividade após sofrer uma faxina geral.

Por Roberta Paduan

A telefonista carioca Sandra de Assis Cabral, de 48 anos, recebeu em maio um salário 60% mais gordo. A diferença foi resultado da distribuição de uma participação no lucro da empresa em que ela trabalha há 24 anos, a Cobra Tecnologia. É verdade que o valor a mais não provocará grandes mudanças na vida de Sandra nem dos demais 437 funcionários da empresa. Mas, para a Cobra, representa um marco — e não apenas por ser a primeira vez que a empresa distribui parte do lucro aos funcionários. Em 29 de existência, a Cobra sempre deu prejuízo ou, no máximo, empatou receitas com despesas. Em 2002, a empresa faturou mais de 164 milhões de dólares e lucrou 6,8 milhões. Seu retomo do investimento, de 70,5%, foi a maior não só do setor de tecnologia e computação, mas de todas as empresas avaliadas nesta edição de MELHORES E MAIORES.

Como a Cobra conseguiu sair do atoleiro? Basicamente, graças a uma faxina geral iniciada há três anos por seu maio acionista, o Banco do Brasil. Mas para entender como uma empresa deficitária sobreviveu por tanto tempo, é necessário conhecer um pouco da história da Cobra, cuja matriz fica no bairro de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro. A empresa nasceu em 1974, depois que a Marinha brasileira formou um grupo de técnicos para prestar serviços de manutenção nas fragatas inglesas então recém-compradas pelo governo. Modernas, as embarcações funcionavam por meio de computadores. O governo vislumbrou aí a possibilidade de criar uma fabricante nacional de computadores e sistemas de informática.

Com a abertura do mercado, a Cobra perdeu competitividade, mercado e -principalmente - o rumo. Tornou-se uma revendedora de equipamentos, como microcomputadores, servidores e bancos de dados. A maioria dos então acionistas - como Itaú, Caixa Econômica Federal, Digilab e Unibanco - vendeu sua participação para o Banco do Brasil, atualmente dono de 99,7% da empresa.

A Cobra permaneceu sem rumo até 1999, quando o Banco do Brasil colocou em pauta o tema governança corporativa e promoveu uma análise de todos os seus ativos. Eis que surge um míco para o qual ninguém dava muita bola: a Cobra. Vender? Até que seria uma boa opção, mas durante o governo Fernando Henrique duas tentativas de privatização da empresa fracassaram por falta de interessados.

Desde então, muita coisa mudou por lá, a começar pelo logotipo da empresa, que passou de Cobra Computadores para Cobra Tecnologia e teve a cor lilás trocada por azul e amarelo para facilitar a identificação com o Banco do Brasil. Mais importante que a mexida na marca, porém, foram as mudanças estruturais. A primeira foi a definição de uma nova estratégia de negócios. "A Cobra é uma empresa de serviços que funciona como o braço de tecnologia da informação do Banco do Brasil", diz Helaine Annita Tissiani, atual diretora financeira da Cobra e então diretora do Banco do Brasil. Ela participou da reestruturação junto com outros executivos do banco. Alguns departamentos desapareceram, enquanto outros foram criados, como a área de controladoria. Antes, não havia uma área que avaliasse indicadores como custos ou margens de ganho.

No aspecto tecnológico, a Cobra recebeu atualizações. No ano passado, um sistema de gestão integrada e um novo sistema de gerenciamento de chamados de manutenção de clientes entraram em funcionamento. Paralelamente às ações de modernização, houve um processo de saneamento. "Tiramos tudo de baixo do tapete", afirma Paulo José Soares, que presidiu a empresa no período de novembro de 2001 a março deste ano.

Outro passo fundamental da reestruturação da Cobra foi a abertura de uma nova fase de relacionamento com parceiros. O trabalho consistiu em mostrar a empresas como HP, Sun e Microsoft que a companhia estava sendo transformada e que o resultado das mudanças seria o aumento de negócios com elas. “A Cobra brilhou no ano passado, e esse é o resultado de uma ação consistente que pudemos perceber nos últimos três anos”, afirma Cleber Morais, presidente da Sun do Brasil.

O Fruto da mudança é palpável: a receita da Cobra aumentou quase 40% de 2002. O Banco do Brasil finalmente passou a confiar boa parte de seus serviços de tecnologia à empresa. Afora o aumento de negócios com o controlador, a Cobra conseguiu novos contratos na área governamental e conquistou clientes no setor privado. De acordo com o atual presidente, o gaúcho Graciano Santos Neto, as mudanças continuam. A Cobra passou a atuar com integração de sistemas e terceirização de serviços de tecnologia da informação. Ainda este ano, a Cobra começará a prestar serviços de central de atendimento telefônico para o Banco do Brasil. “Vamos mostrar que não somos mais um dinossauro”, diz Santos Neto.

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